Carro elétrico fabricado no Brasil é nacional? Stellantis critica os kits chineses e o imposto de 35% em 2027 pode mexer nos preços
Carro elétrico fabricado no Brasil, em 2026, quase sempre é montado a partir de kits chineses: o CKD paga 14% de imposto até dezembro, com cota de US$ 463 milhões isenta, e sobe para 35% em janeiro de 2027, o que pressiona preços de Dolphin Mini, Song Pro e EX2.

Carro elétrico fabricado no Brasil em kits CKD e SKD e o imposto de importação de 35% em 2027
Carro elétrico fabricado no Brasil é nacional? Stellantis critica os kits chineses e o imposto de 35% em 2027 pode mexer nos preços
Boa parte dos carros elétricos e híbridos "fabricados no Brasil" em 2026 chega da China em kits e é montada aqui. É isso que está no centro da crítica do presidente da Stellantis América do Sul, Herlander Zola: em entrevista publicada em 10 de outubro, ele disse que, sem mudança de regras, "é melhor produzir carros na China, desmontar e trazer para cá". Segundo ele, 700 mil veículos leves serão importados só neste ano.
Para quem compra, a questão prática é o preço. Hoje, carros importados prontos pagam 35% de imposto de importação. Kits semidesmontados (SKD) também pagam 35%, e kits completamente desmontados (CKD), 14% — mas uma cota de US$ 463 milhões com alíquota zero vale até 31 de dezembro de 2026. Em janeiro de 2027, o CKD fora da cota sobe para 35%. É essa virada que pode mexer no preço de modelos montados aqui, como BYD Dolphin Mini, Song Pro e King e o Geely EX2.
Veja em vídeo: imposto para carro chinês montado no Brasil
Carro elétrico fabricado no Brasil é mesmo nacional?
Depende de como ele é feito. Há três níveis:
- SKD (kit semidesmontado): a carroceria chega pintada e a parte mecânica já montada. A fábrica brasileira faz a montagem final. É o nível com menos peças e mão de obra locais.
- CKD (kit completamente desmontado): as peças chegam mais separadas, o que permite pintar a carroceria aqui e trocar componentes importados por fornecedores locais aos poucos. Exige mais funcionários.
- Fabricação completa: estampagem, solda, pintura e montagem no país, com boa parte das peças compradas de fornecedores brasileiros.
As marcas chinesas com fábrica no Brasil começaram pelos kits:
- BYD (Camaçari, BA): monta Dolphin Mini, Song Pro e King; em pouco mais de 60 dias de operação, chegou a quase 20 mil unidades. A nacionalização de peças é gradual.
- GWM (Iracemápolis, SP): produz o Haval H6 desde agosto de 2025, com capacidade de até 50 mil carros por ano. Na linha 2027, o motor passou a ser flex, depois da nacionalização de componentes.
- Renault Geely (São José dos Pinhais, PR): vai montar o Geely EX2 em regime CKD antes do fim de 2026, dentro de um investimento de R$ 3,8 bilhões no complexo.
- Leapmotor (Goiana, PE): a própria Stellantis confirmou em 2025 a montagem de modelos da marca chinesa em sua fábrica pernambucana.
Ou seja, a montadora que critica o modelo de kits também é sócia de uma marca chinesa e vai usá-lo. Já detalhamos quais eletrificados fabricados no Brasil escaparam do imposto de 35% e quem produz aqui entre as 16 marcas chinesas.
O que muda no preço com o imposto de 35%?
O imposto de importação incide sobre o valor do kit, e outros tributos são calculados em cima. Um exemplo ilustrativo, só para mostrar a ordem de grandeza: num kit de R$ 80 mil,
- Dentro da cota (alíquota zero): R$ 0 de imposto de importação
- CKD fora da cota em 2026 (14%): R$ 11,2 mil
- CKD fora da cota a partir de 2027 (35%): R$ 28 mil
A diferença entre 14% e 35% é de R$ 16,8 mil por carro nesse exemplo, antes do efeito em cascata de IPI, PIS/Cofins e ICMS. Nem todo esse custo vai necessariamente para o preço — a montadora pode absorver parte, acelerar a troca de peças importadas por nacionais ou contar com uma nova cota. Mas é a pressão que existe.
Os importados prontos já sentiram: desde julho, com a alíquota cheia, várias marcas reajustaram tabelas. O Geely EX2, por exemplo, ficou até R$ 2 mil mais caro em outubro, e explicamos o mecanismo em o impacto do imposto de 35% nos elétricos importados.
Por que as montadoras tradicionais reclamam?
A cota zero foi aprovada pelo Gecex em 23 de junho de 2026 e beneficia principalmente quem monta kits, com a BYD apontada como maior favorecida. A Anfavea, associação das montadoras instaladas há mais tempo, falou em ir à Justiça e estimou impacto de R$ 129 bilhões na cadeia, com 69 mil empregos diretos em risco. Sindipeças e Abipeças criticaram porque, segundo elas, a medida tira o incentivo para comprar peças no Brasil.
Zola vai na mesma linha, mas diz que subir o imposto não basta: defende estímulos para que as montadoras comprem aço, pneus e plásticos de fornecedores locais. A ABVE, que reúne o setor de elétricos, respondeu à época que a cota tem valor e prazo definidos e que é preciso acompanhar se o benefício chega ao consumidor.
O ponto que o leitor deve guardar: os dois lados estão defendendo seus negócios. As chinesas ganham tempo para nacionalizar com imposto baixo; as tradicionais, que já fabricam aqui, querem proteção contra um concorrente com custo menor.
Vale a pena comprar um elétrico montado no Brasil agora ou esperar 2027?
Para quem quer um modelo montado em kit — Dolphin Mini (R$ 119.990), Song Pro (a partir de R$ 196.990) ou King —, a tendência de curto prazo é de pressão de alta, não de baixa, a partir de janeiro de 2027, se nada mudar na regra. Três cenários aliviam essa pressão: uma nova cota para 2027, nacionalização mais rápida de peças ou guerra de preços entre as marcas.
Na dúvida, a recomendação é negociar com base no preço de tabela atual e não contar com redução de imposto em 2027. Vale lembrar ainda que os híbridos plug-in montados aqui ganharam motor flex, uma vantagem que só o Brasil tem e que tende a aumentar à medida que mais peças forem nacionalizadas.
Perguntas frequentes sobre carro elétrico fabricado no Brasil
Qual o imposto de importação de carro elétrico em 2026?
Carros elétricos e híbridos importados prontos pagam 35% desde julho de 2026. Kits SKD também pagam 35%, e kits CKD pagam 14% até dezembro, com uma cota de US$ 463 milhões isenta para os dois tipos de kit.
O que muda em janeiro de 2027?
O kit CKD fora da cota passa de 14% para 35% de imposto de importação, e a cota zero atual termina em 31 de dezembro de 2026. Até agora, não há cota anunciada para 2027.
Qual a diferença entre CKD e SKD?
No SKD, o carro chega semidesmontado, com carroceria pintada e mecânica pronta. No CKD, chega mais desmontado, o que permite pintar e usar peças nacionais no Brasil.
Quais carros elétricos e híbridos são montados no Brasil?
BYD Dolphin Mini, Song Pro e King (Camaçari, BA) e GWM Haval H6 (Iracemápolis, SP). O Geely EX2 deve ser montado em São José dos Pinhais (PR) até o fim de 2026, e a Stellantis confirmou a montagem de modelos Leapmotor em Goiana (PE).
O preço dos elétricos montados no Brasil vai cair?
No curto prazo, a pressão é de alta: o imposto sobre kits CKD fora da cota sobe de 14% para 35% em janeiro de 2027. Uma nova cota ou a nacionalização de peças podem segurar os preços.
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